Rio de Fogo
Como um rio de fogo, seus cabelos ruivos e lisos dançam à minha frente enquanto ela caminha sorridente em direção a mais um conhecido. Seu maior prazer: ver e ser vista, amada, idolatrada, salve e salve. Eu a sigo com meus olhos atentos e meu sorriso pálido no rosto iluminado por uma sombra de ciúmes que há tempos me persegue. Em que momento me deixei levar por tamanha serpente encantadora de gente?
Seu semblante, sempre leve, somente franzia em contragosto quando percebia o meu incômodo diante de tudo o que para ela era tão natural. Eu poderia correr, fugir, sumir dali a qualquer tempo, mas como um viciado, não o fazia, certo de que quando eu quisesse, eu o conseguiria, bastando somente uma simples decisão... que nunca vinha.
Seus olhos eram livres e lindos, de cor indefinida, meio castanhos, às vezes verdes, mas de certo encantadores e hipnotizantes. Sua voz, sempre doce, sempre calma, sempre amiga, envolvia, aquietava e domava qualquer ímpeto que eu pudesse ter de resistir a tudo aquilo.
Um fraco! Um louco! Um Bentinho eternamente enganado por sua Capitu! Porque sim, ela o traiu! Todas as mulheres traem! Todas são impiedosas Capitús nos tornando amargurados Bentinhos.
Ela me olha e diz alguma coisa com aquele sorriso largo no rosto. A quem ela pretende enganar? Não ouço suas palavras, mas leio suas intenções em seu olhar. Em que momento seremos somente nós, eu e ela, sem público, sem audiência, sem seguidores e idólatras? Um pouco mais com estes, um pouco mais com aqueles, e quando mais comigo?
Atravessamos a rua apinhada de gente e carros, barulhos e poluições de todos os tipos. Ela segue seu caminhar seguro por entre tanta diversidade, como se fosse a rainha de Sabá! Ora, ora! Mesmo a rainha tão linda, sábia e culta, se entregou à concupiscência com o tão poderoso Rei Salomão.. e há tantos se arvorando a serem teus reis, quando tudo que eu desejo é seguir sendo teu súdito!
Os dias parecem estar mais quentes e longos. Tudo me sufoca, incomoda. A roupa, o som, a voz, o toque... o toque... o toque... todos a tocam. TODOS! Homens, mulheres... que prazer insano esse que as pessoas têm de tocarem o que não lhes pertence! Saudade do distanciamento social, da quietude do nosso lar, da nossa paz... ou da minha paz, porque ela sempre detestou o isolamento e a quietude. Sempre desejou estar entre “gentes”, sempre reclamou da nossa vida pacata e serena como se aquilo a atingisse ensurdecedoramente tal qual uma bomba nuclear.
Ela me toca, me olha e sorri... nada mais existe ao meu redor, só ela, seus olhos e seu sorriso. Ela me abraça. Ouço sua voz em meu ouvido: “te amo tanto”, e meu corpo trêmulo sente a eletricidade percorrendo cada átomo que o compõe. “Eu também te amo!”... E ela me solta, e se afasta... e ela dança por entre as pessoas, e sorri, e olha, e toca... e toca... e toca... O frio do vazio me toma por completo e o que sobra de mim é somente uma dor aguda no peito. “Por que ela não fica? Por que ela nunca fica?”. E ela dança... todos a observam e se deleitam com sua imagem psicodélica e sensual. Ela é fogo! Uma labareda de fogo dançante que inebria, extasia, paralisa.
E então tudo se transforma em fogo e o fogo dança e dança e dança com suas chamas cada vez mais ardentes queimando tudo ao seu redor. O fogo se alastra consumindo pessoas, paredes, móveis e as ambições de todos os que antes se atreviam a olhar e desejar o que de direito somente a mim pertencia. O fogo transforma em pó as intenções dos abutres invejosos que a tiravam a cada dia um pouco mais de mim.
Como um rio de fogo, como uma labareda dançante, como a própria chama que nos leva do céu ao inferno, seus longos cabelos em ritmo cadente envolviam meus sentidos enquanto meus olhos emocionados observavam ofuscados pela fumaça.
Ela vem em minha direção, braços estendidos, cenho franzido… Sinto sua urgência, mas não entendo o que ela diz. “Vamos embora daqui”?.. É isso? Não sei. Mas o que importa? Eu sorrio e a abraço. Sinto o movimento agitado do seu corpo agora preso ao meu. "Não vamos sair daqui". Somos só ela e eu. Ninguém mais. Seus olhos fixos nos meus. E o fogo... o fogo... o fogo....

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