Entre Lençóis
Não era nada difícil se apaixonar por ela. Linda, inteligente, competente e extremamente amável. Parecia saída de um conto de fadas, a própria princesa encantada numa versão moderna e mais atual. Doce, amorosa, o que eu mais poderia querer da vida?
Nossa amizade nasceu do acaso e nosso amor foi se intensificando com o tempo, sem razão de ser. Simplesmente era assim, e nós gostamos e o alimentamos. Ele crescia a cada dia, e, às vezes, eu me perguntava até onde ele seria capaz de chegar. Sete anos depois, eu tive minha resposta. Enquanto olho no espelho iluminado e vejo minha vida inteira repassando na minha mente até este momento, pergunto-me se poderia ter sido diferente, se havia algo que eu pudesse ter feito que impedisse que chegássemos até aqui. Acredito que há somente uma resposta para essa pergunta: nada! Nada que fizéssemos mudaria o curso dos fatos. Estávamos destinadas a esse momento.
O que é necessário para fazer um amor prevalecer além do próprio amor? Como será daqui pra frente? Quais os passos que devemos dar para que tudo não desande e percamos essa relação que foi tão difícil de conquistar?
As horas passavam lentamente, como em slow motion, desde o momento em que eu abri os olhos pela manhã. Sobre os lençóis brancos, esparramada na cama, ocupando todo o espaço possível, seu corpo se desenhava em um contorno que só artistas de circo seriam capazes de fazer. Sorri da figura que ela projetava sobre a cama. Levemente afastei o lençol que a cobria e beijei suas costas. Sua pele alva se confundia com a roupa de cama, mas eu conseguia distingui-la perfeitamente com meus olhos apaixonados. Seus longos cabelos cor de fogo espalhados pelos travesseiros davam um ar de arte renascentista à cena. Praticamente uma Vênus de Botticelli!
Ela fez um leve movimento como quem diz: “Estou fingindo que estou dormindo, continue a me beijar”. E eu, sem nenhuma relutância, atendi a seu pedido. Beijei-a um pouco mais subindo até os ombros, afastei seus cabelos vermelhos e beijei sua nuca. Senti seu corpo se arrepiar imediatamente, mas ela permanecia na mesma posição, totalmente entregue, esperando que eu agisse. Com as pontas dos meus dedos, acariciei suas costas nuas e desenhei sobre elas um singelo coração. “Eu também te amo!” foi a resposta dela naquele som sufocado devido à cara afogada no travesseiro. Eu sorri e aguardei enquanto ela se espreguiçava e se virava para mim. “Bom dia, mulher da minha vida!”.
E o dia havia começado! Nada era perfeito, mas tudo era maravilhoso na sua imperfeição. Tínhamos a mesma maneira de expressar o amor. O ciúme existia na medida do necessário. Suficiente para significar um “não quero te perder”, mas nada exagerado a ponto de se tornar doentio. Gostávamos de coisas diferentes, tínhamos ritmos diferentes, mas nada disso parecia fazer nenhum impacto negativo em nossa relação. Aprendíamos juntas e crescíamos juntas diariamente.
Um banho a dois, um café da manhã sem pressa e sem hora para acabar.. até a campainha tocar e sermos absorvidas novamente pela realidade. Era hora de ir! Um dia inteiro sem ela (de quem mesmo tinha sido essa ideia?)... E lá partíamos nós rumo ao nosso futuro.
Tento lembrar de como tudo começou. Eu tenho uma teoria, ela tem outra. Para mim, foi naquele dia que eu percebi seu silêncio naquele nanosegundo após eu ter dito: “Fiquei com ela!”. Foi rápido, fugaz, mas eu percebi a rápida alteração do seu semblante e, em seguida, o retorno à quase normalidade com aquela pretensa alegria e os tapinhas nas costas, repetindo: “Que bom, amiga! Me conta tudo! Como foi?”. Ela queria estar feliz, mas não estava feliz, e por não entender o motivo da sua não-completa-felicidade, ela abstraiu e tentou reagir como seria o esperado. O ser humano é muito tolo e ingênuo ao tentar disfarçar suas emoções! Mas eu concordo que não há como agir de outra forma quando não se sabe ao certo o que se sente.
Ela estava legitimamente feliz por mim, mas algo dentro dela a incomodava. Eu estava simplesmente satisfeita, tinha tido uma noite agradável com a tal menina e, pelo menos, agora poderia continuar minha vida sem aquela pressão social do “não acredito que você vai deixar passar! A menina está louca por você!”. Pronto... não deixei passar... cumpri os estatutos sociais utilizados pelos homens e adotados pelas mulheres em sua luta por igualdade... Carpe Diem e Alea Jacta Est. O combo da virilidade.
As imagens dançavam diante dos meus olhos trazendo as lembranças mais lindas como se o universo tentasse comprovar para mim que a decisão tomada era realmente a melhor. Depois daquele dia, cada franzir de testa, cada olhar mais longo, cada sorriso desconcertado passou a ser alvo das minhas análises mais atentas. O que estaria por trás das suas reações? E por que eu me importava tanto com isso?
As pessoas andavam diante de mim, cuidando-me, servindo-me, tentando transformar meu dia no melhor dia da minha vida, mas por mais que eu tentasse manter minha mente focada no momento presente, minha alma viajava pela nossa história lembrando de sorrisos, abraços, declarações e momentos de presença bastante significativos. E se nós simplesmente estivéssemos confundindo amizade com amor romântico? E se for só uma paixão? Essa era uma dúvida constante desde o início.
Tentei mover-me lentamente tentando sentir meu corpo já adormecido após tanto tempo naquela posição de repouso. Sob a máscara facial e a toalha quentinha, o prazer do relaxamento ia e vinha entre um momento e outro de consciência. A menina da massagem apareceu e me trouxe totalmente de volta para a realidade a fim de passarmos para a próxima etapa deste longo dia. Abri meus olhos. “Que menina linda!”, pensei. A imagem da minha Vênus logo apareceu em minha mente, com seu sorriso e seus cabelos ruivos dizendo: “Você não presta!”. Segurei para não rir alto. “O que será que ela está fazendo agora?”.
Um dia ela me perguntou, de forma aparentemente natural, como uma mulher hetero chega ao ponto de dizer que está apaixonada por outra mulher, ainda mais se ela já estiver em um outro relacionamento. Tentei responder naturalmente, considerando que era um questionamento também muito natural. Mas não havia resposta correta. Tudo o que eu dissesse poderia ser considerado como uma possibilidade para nós, pois nossa amizade superava qualquer compreensão de normalidade. Éramos basicamente um casal, mas sem envolver sexo na relação. E se o fizéssemos? O que aconteceria? Era melhor não pensar sobre isso!
Tudo foi rápido e inesperado. Naquele dia, ela estava especialmente irritada. Amorosa, como sempre, ela tentava disfarçar, mas sua insatisfação era visível. Ela e o namorado haviam brigado, e geralmente ela não me procurava nesses momentos. Tínhamos um café marcado com algumas outras amigas, e ela não quis cancelar o encontro. Enquanto ela contava e recontava sua história e ouvia conselhos e mais conselhos das meninas, eu a observava. Suas palavras faziam sentido, mas tinha algo por trás daquilo tudo, algo com o qual ela não conseguia lidar e pro qual usava todos os argumentos racionais possíveis para tentar justificar.
Levei-a em casa, ela me abraçou dentro do carro, como sempre fazia, para se despedir de mim, mas seu corpo tremia. Tentei afastá-la, olhar para ela para entender o que estava acontecendo, mas ela me apertou ainda mais contra si. Senti que suas lágrimas escorriam quando tocaram meus ombros descobertos e molharam minha pele. Ela estava em agonia e eu não sabia o motivo e nem como ajudar. Em meio àquele mix de emoções, uma sensação nova surgiu de repente. Senti sua boca tocando meu ombro num beijo. O quente do seu hálito contrastando com a minha pele molhada e fria. Suas mãos que abraçavam meu pescoço, afastaram meu cabelo enquanto beijava minha nuca lenta, mas intensamente, como se aquele fosse um beijo longamente ansiado. Minha mente fazia doer a minha cabeça tentando forçar-me a um retorno à razão, mas eu já não conseguia ouvir mais nada além do meu coração que batia fortemente em meu peito, como se a cada batida, ele ganhasse ainda mais força para saltar. O primeiro beijo. O primeiro grande silêncio antes da primeira grande pergunta: “O que eu faço?”. E eu só conseguia olhar para ela e dizer: “Eu não sei”.
Às vezes, só temos ideia da profundidade do abismo depois que saltamos nele. E nós demos esse salto, sem sequer saber no que iria dar. Tínhamos tudo contra nós naquele momento. Havia um namorado que seria magoado, uma família que seria surpreendida, uma sociedade que implacavelmente iria julgar e decretar que “elas sempre tiveram um caso”, uma mulher que, por muito amar (e ser amada), se via na iminência de ter que desconstruir todo o seu universo para entrar em um outro ainda tão marginalizado e tão diferente do seu.... e, além de tudo isso, ainda havia eu.
O que veio depois disso pode ser resumido em três palavras: dor, amor e realização. Saldo positivo se pensarmos que são dois sentimentos bons contra um ruim, mas acontece que foi muita dor. Uma dor que parecia insuportável, que parecia que nos quebraria ao meio e que tornaria todos os nossos esforços vãos.
Maquiagem, cabelo, vestido... o dia continuava a passar lentamente diante dos meus olhos, enquanto as lembranças se alternavam na minha mente. Que loucura estávamos fazendo? Senti-me sufocar, como se estivesse enclausurada em minha própria escolha. Eu sei. A todo momento, eu tive opção! Mas como ir embora depois de sentir a leveza do seu toque, a maciez da sua boca, a suavidade da sua pele? Como ir embora depois de tê-la deitada ao meu lado, abraçada comigo, linda, leve, sorridente, contando-me seu dia com aquele seu jeito de falar e beijar ao mesmo tempo? Como ir embora?
Sentada agora ali, diante do espelho iluminado, um suspiro fujão escapou de mim de forma tão demorada que era como se eu houvesse segurado a respiração durante horas a fio e agora tivesse todo o ar do mundo para liberar.
A TV estava ligada enquanto ela mexia no celular ao mesmo tempo. Eu estava concentrada em um livro que eu tinha me desafiado a terminar ainda naquele dia e que segurava apoiado sobre meu estômago. Ela colocou o celular de lado, ficou de joelhos, de frente para mim sobre a cama e abaixou o livro que eu lia. Olhou-me nos olhos, séria como raramente eu a via. Pousou sua mão sobre minha barriga, acarinhando-a suavemente.
- “Amanhã, a essa hora, tudo vai mudar, mas nada pode mudar entre nós. Tenho medo do que pode acontecer”.
Eu entendia o que ela queria dizer, mas preferia que ela mesma o dissesse.
- “Do que você tem medo?”
- “Da paixão”.
Nós nos entendíamos no olhar. Sabíamos o risco que corríamos naquele momento em ceder aos nossos sentimentos e emoções. Sabíamos que havíamos subido muito alto e temíamos a queda.
- “E se for?” – perguntei.
Ela olhou para as próprias mãos que me acarinhavam, afastou os lençóis sobre mim e sentiu minha pele aquecida. Beijou-a suavemente enquanto suas mãos exploravam minha cintura e seu corpo ia se encaixando no meu, até estar completamente sobre mim. Tocando meu rosto suavemente e olhando-me profundamente nos olhos, ela respondeu doce, mas com segurança:
- “Se for, que seja!”
Levantei-me, deixei as lembranças no espelho e apaguei as luzes.
Era hora do casamento.

Nora 10! Não pare.
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