É sério!
É sério! Eu juro pra vocês! Ela estava lá, sentada, toda se achando, imponente até a última gota de seu Black Opium. Pernas cruzadas, olhos atentos, focados no livro aberto diante de si, seguro por mãos delicadas com dedos longos, unhas bem feitas, indicando a mulher cuidadosa que ela era. Uma ajeitadinha nos óculos para parecer ainda mais intelectual. Uma delicada passada de mão nos cabelos para tirar as mechas que atrapalhavam sua leitura. E o retorno à posição original. Ereta, porém leve. Elegante, porém simples. Vulnerável, mas nem por isso acessível.
Minhas pernas tremeram. Meus olhos pareciam dois alucinados girando de um lado para o outro com medo de que fossem percebidos em sua audácia de olhar para aquela efígie humana. Tudo bem! Eu sei! Não tenho nem idade pra tanta timidez, mas o que posso fazer? Sou assim! Vejo... quero... fujo!
Mas, então, lá estava ela.. e lá estava eu... e lá estávamos nós... eu focada nela... e ela sem nem perceber minha presença.
Entrei, sentei, pedi um café, peguei o celular (poderia ter um livro pra passar uma imagem mais intelectual, mas quem anda com livro na bolsa hoje em dia... além dela?). Senti um frisson por dentro, igual criança ansiosa, em êxtase, aguardando o momento de ganhar aquele presente que pediu de Natal. Meu café chegou. Agradeci. Hoje eu não estava a fim de tomar café puro, então peguei o sachê de açúcar mascavo e já o estava abrindo quando...
- Oi.
...
- Incomodo?
...
É sério! Eu juro pra vocês! Eu não levantei a cabeça. Olhando para a xícara de café eu estava. Olhando para a xícara de café eu permaneci. Quanto tempo fiquei tentando abrir aquele sachê? Como não a vi se aproximando de mim? Que lapso temporal foi aquele que me transportou diretamente da vida para aquele momento de quase morte? Porque sim, se eu não morri de susto, com certeza iria morrer de vergonha assim que eu conseguisse fazer minha alma voltar para o corpo.
- Desculpa. Não queria incomodar.
Ela deu um passo atrás e ia começar a se afastar quando eu instintivamente segurei o seu braço.
- Espera! – disse eu já nem acreditando que eu ainda estava viva.
Levantei os olhos com muito esforço (e muito medo, e muita ansiedade, e muito tudo) e, de repente, meus olhos encontraram com os dela. Se eu ainda não tinha morrido, agora eu morreria. Ela estava sorrindo para mim!
- Sinto muito se te incomodei. Te vi sentada aí e senti como se te conhecesse, por isso vim falar com você. Mas acho que me enganei. Acredito que nunca nos vimos antes, não é mesmo?
Eu queria parecer casual e leve, mas acho que pelo semblante dela, minha voz deve ter soado séria e agressiva quando eu respondi: “Não. Não nos conhecemos.”
Dentro de mim, eu queria morrer. Queria que um raio me atingisse, que um tsunami invadisse a cafeteria, que os ETs me abduzissem, qualquer coisa seria válida para me tirar daquela situação. Mas aquela era talvez a única oportunidade que eu teria para conversar com ela, saber pelo menos seu nome (endereço, telefone, instagram...).
- Me desculpa. Eu estava distraída, não percebi sua aproximação. Nós não nos conhecemos ainda, mas se quiser se sentar, podemos conversar. (Sorri. Sim, eu falei isso tudo e sorri. Deve ter sido o sorriso mais amarelo de toda minha vida.)
E ela se sentou. É sério! Ela se sentou diante de mim, olhando nos meus olhos, sorrindo.
- Meu nome é Pâmela.
Ok. Sonho realizado. Já posso ir embora pra casa? Já sei o nome dela!... E não sei mais sobre o que podemos conversar.
Mesmo assim, não sei como, mas a conversa fluiu, do jeito que sempre flui comigo, ou seja, o outro falando e eu ouvindo. Gosto de ouvir, de entender o outro, de ver sua espontaneidade. E naquele momento, tudo o que eu queria era continuar ouvindo suas histórias, naquela voz feminina, porém firme e segura, entremeada de sorrisos, piscadas, caretas, gestos.. E nossa! Como ela gesticulava! Praticamente desenhava cada palavra no ar dando todas as ênfases que a frase precisava só com os movimentos das mãos. E como ela era linda! E como eu sou boba! E como ela era linda, linda, linda!
As horas passaram. Ela não queria ir embora, e eu também não. Eu já não lembrava mais como tudo havia começado, como havíamos chegado até ali, afinal, eu só tinha ido tomar um café e encontrei a mulher da minha vida.
Casamos. Vivemos. Compartilhamos livros, risos e cafés (muitos cafés). Não tivemos filhos por opção. Nunca precisamos de mais nada para completar nosso relacionamento. Brigamos diversas vezes. Ameaçamos nos separar outras tantas vezes.... e até nos separamos de verdade! Por um dia! Tempo suficiente para gente ver que não valia a pena a separação. Depois disso, nunca mais “brincamos” com essa bobagem. Sabíamos que nossa vida só fazia sentido juntas, não porque dependíamos uma da outra, mas porque era juntas que conseguíamos ser cada vez mais nós mesmas individualmente.
Pedi um café e fiquei ali, olhando aquele lugar onde a vi pela primeira vez. Ainda hoje não sei se ela realmente achou que me conhecesse ou se aquilo foi uma desculpa para se aproximar. Quando eu perguntava sobre isso, ela sorria, piscava, e dizia: “Quem sabe?”. Escorpiana misteriosa desde sempre!
Senti no ar o cheiro do Black Opium. Olhei ao redor, mas não havia ninguém por perto. É ela! Só pode ser ela! É sério! Eu juro pra vocês! Ela está aqui! Sempre estará!
Afff como assim?! 🤯
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