A curiosidade que me mata

Sempre lembro de uma ex namorada que me disse, uns 15 ou 16 anos atrás: "Eu tinha certeza de que vc iria ficar comigo." Perguntei o pq e ela respondeu: "Pq vc é mto curiosa!"

Eis aí um fato relevante a meu respeito. Sim! Eu sou mto curiosa. Sou curiosa sobre tudo, mas não sobre todos. Se alguém tiver algo pra me contar, fico curiosa naquele instante em que a pessoa me disse que tinha algo a dizer, mas se ela não contar nada, eu sigo minha vida como se nada tivesse acontecido. Caso ela conte.. e se for sobre alguém... e se for só uma fofoca... meu interesse se perde em poucos minutos. Começo a achar a conversa cansativa e entediante.

Então sobre o que eu seria curiosa?

Sou curiosa sobre o mundo, sobre as coisas, sobre os fatos, mas, acima de tudo, sou curiosa sobre as pessoas que estão diante de mim. Se você quiser falar de você, meu interesse será constante. Serei curiosa sobre sua vida, seus gostos, suas ideias e seus pensamentos. Te ouvirei, e se estivermos em sintonia, também falarei sobre mim. Abrirei minha caixinha de "essencialidades" e as mostrarei todas para você.

No caso específico dessa minha ex, ela atiçou um outro tipo de curiosidade. A minha curiosidade pelos desejos e sentimentos. A curiosidade de saber o que de fato estava acontecendo ali. Era aquilo mesmo que parecia ser? Ela realmente estava tentando algo comigo? Era um jogo simplesmente ou era algo real? Afeto ou brincadeira? No fim, a eterna curiosidade da criança em saber "como será" sempre acaba me vencendo e derrubando as barreiras das minhas convicções (não tão convictas assim).

Talvez por isso eu tenha ido até ela, até essa nova curiosidade que se apresentava agora de forma despretensiosa e natural, mesmo sabendo o resultado de antemão. As estrelas já haviam anunciado que ela não ficaria, mas quem disse que eu queria que ela ficasse? Seria o meu sorriso bobo e estúpido que me denunciava todas as vezes que ela chegava? Ou será que eram meus olhos que a procuravam em toda a parte, mas não se sustentavam quando ela olhava de volta? Ou então meus ouvidos que ficavam atiçados, agoniados na espera de ouvir sua voz e saber que ela finalmente tinha chegado? Foram muitos os sinais de que eu estava perdida em curiosidades mil a respeito dela. E, ao mesmo tempo que eu queria saber de tudo, eu preferia não saber de nada porque era certo que ela já tinha um outro alguém e essa informação eu preferia nem confirmar. Mesmo assim, a curiosidade me mantinha atenta, questionando cada olhada que ela me dava ou cada palavra que me dirigia. Era somente identificação "entre iguais" ou havia algo mais ali? O que ela queria de mim? Será que ela realmente queria algo de mim?

Pauso. Suspiro. Refaço-me (em partes) do dilema. Sigo.

Enquanto isso, a vida me oferece novas curiosidades. Novas oportunidades. Como um gato (ou uma gata), observo, me aproximo cautelosa, rodeio o novo objeto da minha curiosidade que ousou me surpreender num dia desses qualquer. Esse não me ilumina nem faz meus olhos brilharem, mas atiça meus sentidos. Por que eu? Por que agora? Ah, devo ser a piada dos deuses! O Olimpo está em festa e Zeus está me usando para divertir seus convidados! 

Estico as patinhas tentando tocar o alvo, vamos ver no que dá. E zap! Tapa na cara! A plaquinha de "Fique à vontade" era falsa e o lugar já estava ocupado. "Continue! Vá! Aproveite!". Como o mundo é inconsequente em sua tentativa de nos tornar iguais na mediocridade! Mas, aaaahhhh, a curiosidade! Essa ainda vai causar a ruína da humanidade (ou a minha, pelo menos, com toda certeza)! E por ela, somente pela curiosidade, continuo lá, observando, rodeando, calculando milimetricamente o salto e se vale a pena saltar. Valerá?

Move-se mais uma peça no tabuleiro de Zeus e um novo jogador entra em cena. Diferente de todos os outros, esse não estimula a minha curiosidade boa, mas o meu lado mais sombrio. O meu lado jogador! Aquele que raramente uso e que quando aparece é para derrotar o inimigo. A curiosidade de saber até que ponto eu sou capaz de ir, e até que ponto o outro também irá, instiga a Malévola que há em mim. Apesar do eterno dilema interno entre a luz e as sombras (que me dá quase a certeza de que na hora H, eu vou regurgitar e mandar sumir), há ainda uma satisfação primitiva em testar os limites do outro avatar.

Até onde irão essas curiosidades e o que elas farão comigo, é o que me pergunto constantemente. A verdade é que, no fim, geralmente deixo o tempo passar e a curiosidade arrefecer (algo que acontece rapidamente porque eu não me apego a ela). Por saber disso, aquela ex do começo da história ousou me deixar curiosa e se manteve presente, para não deixar a minha curiosidade se apagar. Esperta ela que conseguiu o queria! Tola eu que conheço todos os truques e ainda caio neles! Ah, mas foi uma curiosidade que valeu a pena matar.

Só sei que em algum momento, Zeus apagará as luzes do Olimpo e a festa será encerrada. Seremos todos recolhidos às nossas caixinhas (pequenos e inconscientes peões dos deuses) e de tudo isso, nada mais restará... ou restará algo para se lembrar?

Como uma cadeira de balanço, a vida se movimenta sem sair do lugar. Curiosidades boas, curiosidades sombrias, curiosidades satisfeitas ou não realizadas, tudo isso passa e talvez deixe para trás somente um pouco mais de autoconhecimento (ou não). Mas aquela luz, aquela dos olhos que sorriem, da voz que faz sorrir, da presença que ilumina e dá significado, será que aquela luz também passará? 


Comentários

  1. Lindo! Incrível como envolve o leitor, essa leitura. As palavras fluem como se você estivesse a falar a nossa frente. Continue.

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  2. Achei bem legal e envolvente.. não sabia que escrevia Alê ❤️ Continue

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  3. Parabéns pelos escritos!!

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